Nádia, testemunha da catástrofe

O Prêmio Nobel da Paz de 2018 foi concedido ao médico congolês Denis Mukwege e a jovem yazidi Nádia Murad por seu empenho contra a violência sexual na guerra. Nossos leitores já conhecem Nadia Murad…
O médico congolês Denis Mukwege e a jovem Yazidi Nádia Murad recebem o Prêmio Nobel da Paz de 2018 por seu compromisso contra o estupro e a violência sexual em conflitos. O anúncio oficial foi feito nesta manhã, 5 de outubro de 2018, em Oslo, capital da Noruega. Para os leitores da revista Terra Santa, o nome Nádia Murad, é um nome familiar. Ela foi personagem da nossa edição n° 14 “Nádia, a pequena borboleta de aço” publicada e distribuída em 2016 e que tinha como dossiê “Tempo de Misericórdia – O jubileu na perspectiva cristã, hebraica e islâmica”.
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Era o verão de 2014 e Nádia Murad tinha vinte e um anos de idade. Era uma garota iluminada e despreocupada, e apesar das dificuldades econômicas com as quais sua grande família lidava, fazendo contas diárias para sobreviver em uma pequena aldeia rural no norte do Iraque, Nádia cultivava esperançosa seus projetos para o futuro.
Enquanto ela e seus irmãos passavam horas no campo colhendo cebolas para vender no mercado, o sonho de terminar os estudos e abrir um salão de beleza, para atender especialmente as noivas em seu dia mais especial, não saia da sua cabeça. Em um quarto, que dividia com suas irmãs Adkee e Kathrine, ela mantinha uma relíquia; um álbum com uma coleção de fotografias tiradas em casamentos na aldeia: uma sucessão de penteados elaborados e perfeitos, que a inspiravam para o sonho do seu trabalho.
Hoje, esse verão parece fazer um século. Porque Nádia, apesar da jovialidade aparente em seu rosto e de ter preservado algo da inocência das crianças, teve o terrível destino de experimentar em sua pele a louca barbárie do califado negro, quando em julho, quatro anos atrás, os militantes do autointitulado Estado Islâmico, que estavam expandindo sua presença na Síria e na região norte do Iraque, surgiram com seu ameaçador comboio de caminhões no horizonte da vila de Kocho. Nádia e seus irmãos os viram de longe e logo perceberam que suas vidas mudariam para sempre.
Kocho, não muito longe do Monte Sinjar, fazia parte daquela área do país habitada por 400 mil yazidis, um povo antigo que se identifica com uma religião não ligada ao Islã, preservada intacta por muitos séculos, apesar da desconfiança do mar muçulmano que os circundava.
A fé fazia parte do cotidiano da comunidade. Já no início da manhã, quando se dirigiam ao sol nascente e rezavam a oração de agradecimento a Deus, que se manifesta através do calor dos raios. Nádia relembra as cores vivas dos ovos decorados todos os anos, em abril, para o Charshama Sor, a “Quarta Vermelha” do Ano Novo, e a atmosfera mística do vale de Lalish, nas montanhas entre Duhok e Mosul, sede da solene peregrinação do outono: sete dias de celebrações, ritos sugestivos, orações e novas amizades com colegas de outras aldeias. Aos dezesseis anos, ela estava imersa nas águas da fonte sagrada Zemzem para seu batismo.
Os yazidis, que traçam sua fé até os tempos da criação do mundo, veneram este vale no qual está o sugestivo santuário cônico das cúpulas, porque é precisamente aqui que, segundo a tradição, Khude, o Deus incognoscível, enviou à Terra Anjo pavão, Tawusi Melek, para fazer nascer vida do caos e operar como um mensageiro entre o homem e seu Criador. De acordo com o Mishefa Reş, um dos dois textos sagrados da comunidade, Deus instruiu Tawusi Melek a não se prostrar a outros, exceto a Ele. Então, depois de criar o homem do pó, ele testou os anjos ordenando que se curvassem a Adão, mas o pavão se recusou. Para os yazidis, a confirmação suprema de sua fidelidade a Khude. Para os vizinhos muçulmanos, no entanto, a prova de que essa comunidade pacífica era uma seguidora do anjo caído, Shaytan, o tentador. Adoradores do diabo.
É desse terrível nome que se originaram séculos de discriminação e repetidos genocídios: exatamente 72, segundo as histórias transmitidas de pai para filho, disseminadas em uma longa e conturbada história. Marcada, no Iraque pelas divisões étnicas e religiosas.
“Nas comunidades sunitas, o ódio estava se espalhando para nós. Talvez ele sempre estivesse lá, logo abaixo da superfície. Agora estava à luz do sol e estava se espalhando rapidamente”, lembra Nádia. O nome e o rosto desta jovem mulher que nunca teria imaginado deixar o Iraque hoje são conhecidos em todo o mundo porque Murad é uma das muito poucas, entre as sete mil meninas e até mesmo crianças raptadas que foram transformadas em escravas sexuais do Isis. Uma vez que conseguiu escapar, decidiu tornar-se uma testemunha da catástrofe sobrepujada em seu povo. Ela não só falou publicamente de seus seis irmãos e mãe massacrados pelo Isis mas de si, por ter também sofrido na pele a tortura sistemática e os estupros. Tornou-se embaixadora da ONU para a dignidade de sobreviventes de tráfico de seres humanos, recebeu o Prêmio Sakharov do Parlamento Europeu pela liberdade de pensamento e foi nomeada para o Prêmio Nobel da Paz.
E os seus sonhos foram forçosamente mudados, como conta no livro escrito com a jornalista Jenna Krajeski e recentemente lançado na Itália com o título: The Last Girl. História do meu aprisionamento e da minha batalha contra o ISIS (prefácio de Amal Clooney, pp. 334, euro 20).

Leia mais sobre Nádia – A pequena borboleta de aço na edição 14 da Revista Terra Santa.

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